Um Amor na Ilha de Santa Catarina

Estamos no início da década de 40 do século XX. Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina, está com um população de 46.771 habitantes (IBGE). A Colônia São Pedro de Alcântara já havia festejada o seu centenário em 1929, mas a igreja matriz construída para marcar a data ainda não fora consagrada.
Na Colônia, Maria Christina Behrens Wilberth era uma mulher ativa, de temperamento forte - somente falava hochdeutsch (alto alemão) - e procurava controlar toda a família, inclusive os netos. Diziam que era descendente de uma rica família prussiana, na Alemanha. O filho Roberto teve um professor que o introduziu nas ciências exatas e humanas. Um neto foi mandado estudar num seminário católico em Toledo no Paraná. Outra neta, a Tácia, foi trabalhar como doméstica com a prima Maricha em Florianópolis. Lá tinha casa e comida e podia estudar no Colégio São José.
Maricha trabalhava na casa de uma rica família de bancários. O serviço doméstico naquela casa e época era feito sob regras rígidas. A alimentação, por exemplo, era separada e diferenciada entre os empregados e os membros da família.
Tácia estava com 16 anos, falava fluentemente o hochdeutsch e razoavelmente o português, pois havia frequentado por dois anos a escola primária em São Sebastião, na Colônia.
Ela estava encantada com a cidade grande. Na casa onde trabalhava logo percebeu a presença do filho do patrão, um rapaz com mais ou menos a sua idade.
Comentou com a Maricha:
- Que rapaz bonito!
- O nome dele é Romeu. Mas ele é gago, comentou Maricha rindo.
Tirou as dobras do uniforme com o ferro de passar, arrumou o cabelo colocando grampos nos cabelos castanhos escuros, conferiu a sua aparência e seus olhos azuis no espelho e foi dar uma volta na cozinha. Era o café da manhã.
Ele estava sozinho.
- Que..Que..Quem es tu? Perguntou ele.
E ela toda sorrisos:
- Eu sou a Tácia. Estou ajudando na casa. Sou prima da Maricha.
Ah, ele é lindo! Vestindo um elegante uniforme do Colégio Catarinense, estava indo para a escola.
É gago, e daí?
A “química” cujo coquetel inclui dopamina, norepinefrina e, sobretudo, feniletinamina começou a fazer efeito. Ela estava amando!
Comentou com a Maricha.
- Tu tás te achando muito. Ele é o filho predileto do patrão. Esquece. Ele não é pra ti.
Foi para a aula feliz pensando nele. Não é pra mim? Mas posso amá-lo, não posso?
Os seus dias tornaram-se mais brilhantes, as suas tarefas mais fáceis. Ela estava amando. A euforia a fazia correr, pular, rir e chorar.
Quando ele voltava da aula, ela ia para cozinha passar o pano nas coisas. Ele ia para o quarto estudar e ela pensando em estar perto, ver os seus livros, o que ele estudava e escrevia.
Falou para a Maricha que ela arrumaria o seu quarto pela manhã. Queria sentir o seu cheiro na cama, no travesseiro, deitar-se no seu calor...
A missa de domingo era o local ideal para eles se encontrarem. Mas havia dois horários. Mais cedo iam os empregados, e, mais tarde as autoridades e pessoas em geral. É, ela não poderia encontrá-lo na missa. Mas em casa, sim, ele estava lá. Estudando, tomando café, caminhando pelo jardim...
Depois de algum tempo veio a fatídica notícia: ela precisava voltar para casa. Ordem da Vó Maria Christina.
- Tu sabias o tempo todo que isto ia acontecer. Agora não chores, foram as palavras da Maricha.
Mas ela chorou. Chorou de verdade. Queria morrer. Mas nada podia fazer.
Chegou o dia e ela se despediu. Ela nem sabia se ele a amava. Tentou segurar as lágrimas e lhe estendeu a mão:
- Adeus!
Ele parece ter percebido que ela estava emocionada de um modo diferente, mas nada fez nem poderia ter feito.
Ela voltou para a Colonia, enamorou-se de um rapaz de lá e casou.
Nasceu o primeiro filho e batizou-o como Romeu. 

Desde a mais tenra infância contava ao filho a sua história de amor, justificando o nome diferente, pois não existia outro nome igual na Colônia.
Anos depois, na viagem para o Seminário em Brusque, ele embarcou no ônibus e sentou-se na poltrona indicada.
De repente, entrou um grupo de senhores pelo corredor do ônibus, rindo, falando e tomando lugares.
- Romeu este lugar é o teu, falou um.
E ele gaguejando:
- Pre...Pre...Prefiro a janela.
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