Um filho do Acaso (Parte 2)

Aos dezesseis anos, 1964, foi trabalhar como menor, carteira de trabalho assinada, na INCASA de Joinville, como auxiliar der escritório. Aos dezenove ingressou no Exército em Joinville-SC. Um mundo totalmente desconhecido e sem amigos. A Revolução que havia acontecido um ano antes, em nada afetou sua vida. Os acontecimentos eram acompanhados pelo jornal e pela televisão. O Exército ainda usava cavalos para transportar equipamentos e armas (canhões, por exemplo) e o fuzil era o modelo Mauser 1908. Na comida a carne (picadinho) tinha forte cheiro e gosto de podre que eram aliviados com molho forte de pimenta preparada pelo próprio soldado. Para espanto nosso algum tempo depois, no rancho foi servida carne assada de panela, farofa e outros acompanhamentos. Os cavalos foram vendidos e viaturas blindadas foram incorporados ao Batalhão. Como gostava muito de música comprou um radiosinho de pilha que lhe foi furtado no alojamento do quartel. Havia aulas de educação sexual, principalmente sobre a transmissão de doenças venéreas. Os serviços de guarda incluíam as cavalariças, onde cavalos muitas vezes fugiam. A guarda em áreas grandes e escuras à noite, gerava muito medo, embora não existissem inimigos de verdade. A rotina, hierarquia e disciplina, em que não havia violência, eram suportáveis para um soldado de boa vontade. Fez os cursos de cabo no quartel e o de sargento em Alegrete no interior oeste do Estado do Rio Grande do Sul. Em Alegrete conheceu o Minuano, um vento muito frio que vem da Argentina e o Rio Ibirapuitã onde os alunos do curso iam tomar banho.
Foi promovido a Sargento com um ano e meio de serviço militar e transferido para Florianópolis. Em Florianópolis instalou-se num pequeno hotel – São Cristóvão - que ficava perto do quartel. No batalhão foi punido por não acordar na hora certa para o plantão de hora, de madrugada. “Em 1974, uma enchente em Tubarão deixou 199 mortos e 65 mil desabrigados. O rio que dá nome ao município subiu 10,22 m depois de dois dias de chuvas ininterruptas. A água baixou apenas dois dias depois e 90% dos moradores perderam tudo o que tinham”. (noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI3348757-EI8139,00-Maior+enchente+de+SC). O Exército se fez presente. Comandei um cabo e um grupo de oito soldados que se instalou numa escola no Morro da Fumaça.
Ainda um fato atípico aconteceu no Batalhão. Um soldado foi acusado de fazer sexo homossexual com outros no Pelotão da Companhia. O Aspirante-a-oficial Seixas fez a investigação e disseram, à boca pequena, que o acusado foi torturado com cigarro aceso e confessou. Terminada a investigação, o Batalhão foi colocado em forma, o acusado foi apresentado e declarado expulso do Exército, entregue à polícia civil de acordo com o Código Penal Militar (Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969.¹ - Art. 235. Praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar. Pena - detenção, de seis meses a um ano.)
Fez amigos que mantém até hoje. Casou-se enquanto estava no Exército e participou da fundação do Clube Atlético Marechal Guilherme. Conseguiu com o comandante do Batalhão, autorização para assistir, à tarde, as aulas das fases iniciais do Curso de Direito. Formou-se em 1975. Instado a fazer um curso de aperfeiçoamento no Rio de Janeiro, e já com um filho, decidiu sair do Exército com 12 anos de serviço. Em junho de 1976 fui contratado como Assessor do Reitor, na Universidade Federal de Santa Catarina.

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