O QUE EU SEI

Meu cérebro, orientado pela inteligência e usando os olhos como farol, perscruta as infinitas sombras que me cercam. Sou uma boia emaranhada por liames verdadeiros e ilusórios que me direcionam em buscas de realidades nunca vistas.
O artigo 1° do catecismo católico pergunta: Para que vivemos na terra? E responde: Vivemos na terra para salvar a nossa alma. Isto porque a Igreja parte do suposto de que todos temos a marca do pecado original. Então precisamos nos purificar deste pecado e viver uma vida honesta para subir para o paraíso. É oportuno lembrar que os Egípcios antigos, há 4.000 anos, baseados nos escritos dos seus túmulos, esta nossa vida é apenas uma passagem, e todo o esforço do homem deveria ser direcionado para chegar ao mundo do pós-morte, a verdadeira vida, o paraíso. Mumificavam os corpos, adicionavam-nos objetos para o usufruto na vida futura. É nesse sentido que a nossa religião católica afirma que esta vida é um vale de lágrimas e que a verdadeira vida será vivida depois da morte, repetindo a crença egípcia.
Nietzsche escreveu repetidamente sobre essa realidade. “São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida… este ódio de tudo que é humano, de tudo o que é animal e mais ainda de tudo que é matéria, este temor dos sentidos… este horror da felicidade e da beleza; este desejo de fugir de tudo que é aparência, mudança, dever, morte, esforço, desejo mesmo, tudo isso significa… vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida.”¹
Olhando para os dias de hoje, para a nossa realidade, o que significa salvar a alma? Observe que a alma não pode ser salva pelo outro, por um salvador. O rebanho não pode ser salvo, mas só a alma individualmente. A alma precisa salvar a si mesma. Salvar significa ser libertada da morte, isto é, sobreviver à morte física da matéria e entrar em outra dimensão com vida, ou seja, com consciência. Este é o objetivo de todos os cérebros! A vida mental e os pensamentos são invisíveis, mas são uma criação da matéria, o cérebro. Entrar em outra dimensão é mudar de patamar em que não haverá comunicação com o anterior. Estas coisas não podem ser provadas e é por isto que a crença ganha espaço.
Nietzsche lembra que a vida precisa ser vivida plenamente. A alma precisa evoluir e crescer com as suas experiências, expandir todas as suas potencialidades e, então, estar madura, isto é, consciente, para dar o passo seguinte: a mudança para uma outra dimensão. A mente, os pensamentos, a consciência e os sentimentos formam uma individualidade própria que já estão em outra dimensão da matéria. Depois da morte, acordar numa nova realidade, mesmo com a perda da memória é algo que me faz pensar. A perda da memória individual já é uma realidade para as pessoas idosas, e penso que é o passo seguinte na evolução da vida, antes da mudança para outra dimensão. A transposição da consciência penso ser uma experiência individual e não do rebanho. Os pensamentos que nos impregnam, cultivados por toda uma vida, formam a arquitetura da nossa vida mental. Salvar a alma não será fruto da fé e das crenças de uma determinada religião, mas o agir consciente de toda a estrutura da alma imantada pelo espírito para tornar-se consciente no próximo passo da evolução.
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¹ Friedrich Nietzsche, Obras Incompletas, Nova Cultural, 1999.
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