Die Pützer
O amor e outras histórias da família.
Quem fosse procurar Pütz, Michael na colônia alemã de Santa Catarina não iria encontrá-lo pois o seu nome no cartório da Freguesia Açoriana de São Miguel da Terra firme havia sido traduzido para Pitz, Miguel. Mataram o Michael Pütz, criaram um novo personagem: Miguel Pitz que não sabia falar e escrever português, mas foi alfabetizado no Hundsrücken. Então, desde 1830, fica assim. Todos os seus descendentes foram registrados como Pitz. Nunca ninguém reclamou, pois achavam que é o certo. Mas a família Pütz tem uma história de séculos. Este nome tem um significado em alemão: fonte de água, de vida. O DNA da família não foi alterado pelo burocrata português. Die Petza como eles se chamam, continua vivo e vibrante, no DNA do sangue que flui nos seus descendentes.
Francisco Pütz (der Petza Chic), casado com Elisa Gesser teve 13 filhos (4 mulheres e 9 homens: Fredolino (Fredolin), Arnoldo (Arnold), Virgílio (Virgil), Sebastião (Sebastian), Leonardo (Leo), Pedro (Peda), José (Zé), Júlio (Jul), Alfredo (Freda), Bertolina (Berta), Maria (Marie), Rainildes (Nila) e Albertina (Betina).)¹.
Sabemos que a educação na família dos imigrantes alemães era rígida: hierarquia (a idade) e disciplina. E a religião católica e a fé moviam os seus pensamentos. Abraços e carinhos não eram costumeiros.
Fico pensando no meu avô, primeiro filho do segundo casamento de Michael (filho) e que ficou com a propriedade do pai onde se dedicou à fabricação de açúcar de cana. As crianças até a maioridade usavam somente um uniforme tipo camisola, com tecido de algodão barato chamado de riscadinha e andavam descalços. Assim que podiam carregar uma cana-de-açúcar estavam na roça ajudando os pais.
Mudança de Casa e a fabricação do açúcar.
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) aumentou a demanda por açúcar. Comerciantes da Barra (do Biguaçu) recolhiam a produção de açúcar do Alto Louro e a enviavam para Florianópolis. Dali era mandada para o Rio e Janeiro. O refino do açúcar grosso era feito na Europa, em Amsterdam, na Holanda.
A plantação da cana e a fabricação do açúcar grosso exigia muita mão de obra e que a terra e o clima fossem favoráveis. No Louro estas condições eram boas.
Moída a cana, a garapa era levada pela força da gravidade até um tacho de cobre onde era fervida sob fogo forte. Evaporando a água, a garapa ia encorpando e formando o melado. Usava-se uma escumadeira para retirar as impurezas que se concentravam na espuma e verificar a sua densidade.
Para fazer açúcar, deixava-se o melado adquirir maior densidade. Ao aproximar-se do ponto, diminuía-se o fogo para evitar o escurecimento. Esfriado no tacho, era transferido para o gamelão. Solidificado em placas de cristal, era colocado em caixas de madeira para escorrer o líquido ainda existente. Após alguns dias, era posto em tablados para secar ao sol. Com uma enxada, os blocos de cristal eram remexidos e esfarelados até a seca total. Peneirado para separar os torrões, era acondicionado em caixas de madeira em local seco e ventilado. De cor amarelada, o açúcar grosso ou mascavo, estava pronto para o consumo.
Agora, transformar este açúcar em um monte de dinheiro capaz de comprar uma fazenda já era uma façanha. E era necessário, também, uma reserva para investir no novo imóvel. Do sítio do Alto Louro, com casa de pau à pique, um buraco, para a nova fazenda com casa de alvenaria e um pasto aberto e enorme em São Pedro de Alcântara era uma mudança, tipo, do purgatório para o céu.
Francisco ficou com a propriedade da família no Louro e dedicando-se à produção de açúcar amealhou uma pequena fortuna e comprou a outra parte da propriedade (700.000 m2), de Pedro Estevão Koerich que havia sido vendida para o Governo do Estado. Deixando a propriedade do Louro com o filho Leo (Leonardo), mudou-se com a família para o sítio de São Pedro de Alcântara onde passou a ser vizinho da casa de verão do governador do Estado.
Mais informações:
Fotos dos filhos de Francisco:
http://kaipitz.blogspot.com/2017/09/francisco-pitz-dea-petza-chic-michael.html
Francisco com a família, provavelmente, mudou-se para o novo sítio, no final da década de 1920, com a maioridade do filho Leonardo que assumiu o sítio do Louro. Esta nova propriedade tinha um clima mais frio e as terras eram menos férteis. A banana e o café sombreado continuavam sendo colhidos no Louro. A geada anos depois também matou os pés de goiaba e não havia mamoeiro.
Já havia um caminho com passagem a pé entre os sítios.
Não havia escolas no Louro. Falava-se o dialeto plattdeutsch e a família não sabia falar português. As orações eram uma mistura de hoch deutsch e dialeto, incompreensíveis para as crianças.
A propriedade do Campo, assim chamada, tinha uma infraestrutura maravilhosa. Não sabemos quais obras já faziam parte do imóvel ao ser comprado e quais foram construídas pelo Francisco. O que sabemos é que a tirolesa, por exemplo, foi usada para transportar molhos de cana de um morro próximo até o engenho, mas não foi aprovada porque ao cair no final do percurso, por causa da força do impacto, destroçava os molhos de cana-de-açúcar que transportava. O paiol de armazenamento de milho era sustentado por quatro fortes postes de madeira com abas de latão retorcido para evitar a subida de ratos. A represa de água, chamada de tanque, tinha duas fontes de abastecimento: uma principal e outra captada através de vala, no morro, de aproximadamente 500 metros, que vinha do outro extremo do sítio. O chiqueiro e o galinheiro continuavam com a sua serventia.
O engenho era uma fábrica de açúcar, farinha de mandioca, polvilho, garapa e de melado. A roda de água tinha um controle remoto de comando manual que, quando necessário, desviava a água da roda. Havia ainda, descascador e o moedor de mandioca. Três fusos de madeira secavam no tipiti a mandioca moída. A capina das roças de cana, no verão era uma tragédia, exigindo um completo uniforme com chapéu para se proteger do corte das folhas. Em volta da casa plantavam-se hortaliças, frutas, laranjeiras gigantes, pés de ameixa, bergamota e caqui.
A morte de Francisco Pütz
A caça e a pesca eram praticados de forma esportiva, no final de semana. Usava-se arma de fogo, uma espingarda de calibre .32, a funda e o bodoque. Na época da safra da cana e da mandioca levantava-se cedo, quando o galo cantava pela primeira vez, aproximadamente às três e meia da manhã.
No desenvolvimento das suas atividades, Francisco comprou um carro de molas, dois cavalos e construiu um galpão de madeira para a guarda dos arreios e do carro. Um cavalo foi destinado à montaria. As atividades do sítio envolviam a doma de animais para o carro de boi, pois carroça com cavalos era impraticável por causa da topografia do terreno. Pouco usufruiu ele do carro de mola, principalmente, para deslocar-se, aos domingos, para a missa.
A educação era rígida. Francisco era um pai ausente, cabendo à mãe o trato com os filhos. Esta era a cultura em geral. A relação entre os filhos era geralmente, harmoniosa, com as exceções de praxe. Com os casamentos, a inclusão de uma mulher estranha, podia gerar conflitos com a família. Sabe-se de duas que tinham comportamento autoritário e surtiram desavenças graves que foram desativadas pelos demais. Este clima de animosidade e desinteresse do pai pode ter gerado um mal-estar que deixou a impressão de que Francisco não era amado pela família. Ele morreu sem atendimento médico, aos 59 anos, em 1º de setembro de 1931, de pericardite. Seus restos mortais estão enterrados no cemitério velho de São Pedro de Alcântara, no meio da vegetação e das árvores que se apoderaram da área. Seus filhos não removeram seus restos mortais para o novo cemitério que anos mais tarde foi construído pela Prefeitura próximo à Igreja. Sua mulher Luisa morreu 20 anos depois e foi enterrada num túmulo distante do dele.
Ele não está tão distante, foi o meu avô, mas de acordo com estudos bíblicos, a pessoa depois de quatro gerações, retorna pelo DNA. Seria um tipo de renascimento. Há uma relação direta de parecença física, entre ele, eu, um dos meus filhos e meu neto.
Quem fosse procurar Pütz, Michael na colônia alemã de Santa Catarina não iria encontrá-lo pois o seu nome no cartório da Freguesia Açoriana de São Miguel da Terra firme havia sido traduzido para Pitz, Miguel. Mataram o Michael Pütz, criaram um novo personagem: Miguel Pitz que não sabia falar e escrever português, mas foi alfabetizado no Hundsrücken. Então, desde 1830, fica assim. Todos os seus descendentes foram registrados como Pitz. Nunca ninguém reclamou, pois achavam que é o certo. Mas a família Pütz tem uma história de séculos. Este nome tem um significado em alemão: fonte de água, de vida. O DNA da família não foi alterado pelo burocrata português. Die Petza como eles se chamam, continua vivo e vibrante, no DNA do sangue que flui nos seus descendentes.
Francisco Pütz (der Petza Chic), casado com Elisa Gesser teve 13 filhos (4 mulheres e 9 homens: Fredolino (Fredolin), Arnoldo (Arnold), Virgílio (Virgil), Sebastião (Sebastian), Leonardo (Leo), Pedro (Peda), José (Zé), Júlio (Jul), Alfredo (Freda), Bertolina (Berta), Maria (Marie), Rainildes (Nila) e Albertina (Betina).)¹.
Sabemos que a educação na família dos imigrantes alemães era rígida: hierarquia (a idade) e disciplina. E a religião católica e a fé moviam os seus pensamentos. Abraços e carinhos não eram costumeiros.
Fico pensando no meu avô, primeiro filho do segundo casamento de Michael (filho) e que ficou com a propriedade do pai onde se dedicou à fabricação de açúcar de cana. As crianças até a maioridade usavam somente um uniforme tipo camisola, com tecido de algodão barato chamado de riscadinha e andavam descalços. Assim que podiam carregar uma cana-de-açúcar estavam na roça ajudando os pais.
Mudança de Casa e a fabricação do açúcar.
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) aumentou a demanda por açúcar. Comerciantes da Barra (do Biguaçu) recolhiam a produção de açúcar do Alto Louro e a enviavam para Florianópolis. Dali era mandada para o Rio e Janeiro. O refino do açúcar grosso era feito na Europa, em Amsterdam, na Holanda.
A plantação da cana e a fabricação do açúcar grosso exigia muita mão de obra e que a terra e o clima fossem favoráveis. No Louro estas condições eram boas.
Moída a cana, a garapa era levada pela força da gravidade até um tacho de cobre onde era fervida sob fogo forte. Evaporando a água, a garapa ia encorpando e formando o melado. Usava-se uma escumadeira para retirar as impurezas que se concentravam na espuma e verificar a sua densidade.
Para fazer açúcar, deixava-se o melado adquirir maior densidade. Ao aproximar-se do ponto, diminuía-se o fogo para evitar o escurecimento. Esfriado no tacho, era transferido para o gamelão. Solidificado em placas de cristal, era colocado em caixas de madeira para escorrer o líquido ainda existente. Após alguns dias, era posto em tablados para secar ao sol. Com uma enxada, os blocos de cristal eram remexidos e esfarelados até a seca total. Peneirado para separar os torrões, era acondicionado em caixas de madeira em local seco e ventilado. De cor amarelada, o açúcar grosso ou mascavo, estava pronto para o consumo.
Agora, transformar este açúcar em um monte de dinheiro capaz de comprar uma fazenda já era uma façanha. E era necessário, também, uma reserva para investir no novo imóvel. Do sítio do Alto Louro, com casa de pau à pique, um buraco, para a nova fazenda com casa de alvenaria e um pasto aberto e enorme em São Pedro de Alcântara era uma mudança, tipo, do purgatório para o céu.
Francisco ficou com a propriedade da família no Louro e dedicando-se à produção de açúcar amealhou uma pequena fortuna e comprou a outra parte da propriedade (700.000 m2), de Pedro Estevão Koerich que havia sido vendida para o Governo do Estado. Deixando a propriedade do Louro com o filho Leo (Leonardo), mudou-se com a família para o sítio de São Pedro de Alcântara onde passou a ser vizinho da casa de verão do governador do Estado.
Mais informações:
Fotos dos filhos de Francisco:
http://kaipitz.blogspot.com/2017/09/francisco-pitz-dea-petza-chic-michael.html
Francisco com a família, provavelmente, mudou-se para o novo sítio, no final da década de 1920, com a maioridade do filho Leonardo que assumiu o sítio do Louro. Esta nova propriedade tinha um clima mais frio e as terras eram menos férteis. A banana e o café sombreado continuavam sendo colhidos no Louro. A geada anos depois também matou os pés de goiaba e não havia mamoeiro.
Já havia um caminho com passagem a pé entre os sítios.
Não havia escolas no Louro. Falava-se o dialeto plattdeutsch e a família não sabia falar português. As orações eram uma mistura de hoch deutsch e dialeto, incompreensíveis para as crianças.
A propriedade do Campo, assim chamada, tinha uma infraestrutura maravilhosa. Não sabemos quais obras já faziam parte do imóvel ao ser comprado e quais foram construídas pelo Francisco. O que sabemos é que a tirolesa, por exemplo, foi usada para transportar molhos de cana de um morro próximo até o engenho, mas não foi aprovada porque ao cair no final do percurso, por causa da força do impacto, destroçava os molhos de cana-de-açúcar que transportava. O paiol de armazenamento de milho era sustentado por quatro fortes postes de madeira com abas de latão retorcido para evitar a subida de ratos. A represa de água, chamada de tanque, tinha duas fontes de abastecimento: uma principal e outra captada através de vala, no morro, de aproximadamente 500 metros, que vinha do outro extremo do sítio. O chiqueiro e o galinheiro continuavam com a sua serventia.
O engenho era uma fábrica de açúcar, farinha de mandioca, polvilho, garapa e de melado. A roda de água tinha um controle remoto de comando manual que, quando necessário, desviava a água da roda. Havia ainda, descascador e o moedor de mandioca. Três fusos de madeira secavam no tipiti a mandioca moída. A capina das roças de cana, no verão era uma tragédia, exigindo um completo uniforme com chapéu para se proteger do corte das folhas. Em volta da casa plantavam-se hortaliças, frutas, laranjeiras gigantes, pés de ameixa, bergamota e caqui.
A morte de Francisco Pütz
A caça e a pesca eram praticados de forma esportiva, no final de semana. Usava-se arma de fogo, uma espingarda de calibre .32, a funda e o bodoque. Na época da safra da cana e da mandioca levantava-se cedo, quando o galo cantava pela primeira vez, aproximadamente às três e meia da manhã.
No desenvolvimento das suas atividades, Francisco comprou um carro de molas, dois cavalos e construiu um galpão de madeira para a guarda dos arreios e do carro. Um cavalo foi destinado à montaria. As atividades do sítio envolviam a doma de animais para o carro de boi, pois carroça com cavalos era impraticável por causa da topografia do terreno. Pouco usufruiu ele do carro de mola, principalmente, para deslocar-se, aos domingos, para a missa.
A educação era rígida. Francisco era um pai ausente, cabendo à mãe o trato com os filhos. Esta era a cultura em geral. A relação entre os filhos era geralmente, harmoniosa, com as exceções de praxe. Com os casamentos, a inclusão de uma mulher estranha, podia gerar conflitos com a família. Sabe-se de duas que tinham comportamento autoritário e surtiram desavenças graves que foram desativadas pelos demais. Este clima de animosidade e desinteresse do pai pode ter gerado um mal-estar que deixou a impressão de que Francisco não era amado pela família. Ele morreu sem atendimento médico, aos 59 anos, em 1º de setembro de 1931, de pericardite. Seus restos mortais estão enterrados no cemitério velho de São Pedro de Alcântara, no meio da vegetação e das árvores que se apoderaram da área. Seus filhos não removeram seus restos mortais para o novo cemitério que anos mais tarde foi construído pela Prefeitura próximo à Igreja. Sua mulher Luisa morreu 20 anos depois e foi enterrada num túmulo distante do dele.
Ele não está tão distante, foi o meu avô, mas de acordo com estudos bíblicos, a pessoa depois de quatro gerações, retorna pelo DNA. Seria um tipo de renascimento. Há uma relação direta de parecença física, entre ele, eu, um dos meus filhos e meu neto.
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