A MÚSICA

Aos 11 anos de idade foi matriculado no Seminário Menor. Todo a sua experiência de vida havia sido no sítio da família. A escola primária ficava perto de casa onde aprendeu a falar português, pois a sua língua materna era o alemão.

    No seminário, lembra-se, das duas primeiras atividades. A primeira foi um jogo de futebol entre alunos, na véspera do início oficial de atividades do ano letivo. Ele não conhecia futebol. Colocaram-no na defesa. Aviso: não deixe a bola entrar no gol. Para mostrar serviço, na confusão entre vários jogadores, quando a bola estava para entrar, ele não teve dúvidas: pegou a bola com as mãos.
    - Pênalti, gritaram todos em volta.
    - Seu burro!
    É, ele ainda tinha muito a aprender.
    No dia seguinte, houve o teste para o Coral. Ele adorava música, mesmo não a tendo em casa. Eles não tinham rádio, só as músicas de domingo com o coral da igreja. Mas estava muito animado e passou no teste com facilidade: primeira voz (a voz mais aguda).
    Nos primeiros ensaios o maestro notou o seu empenho, sua alegria e a qualidade do seu canto. Logo, logo foi designado como solista.
    Nas operetas apresentadas no Teatro do Seminário, ou apresentações culturais do coral na cidade, ele era a estrela. Mas não sabia. Continuava sendo apenas um cantor.
    Pelo seu destaque o maestro brindou-o com aulas de piano, dadas por ele duas vezes por semana.
    Aí apareceram as dificuldades que nem o maestro previra. Ele não tinha talento para tocar piano. No canto, o coro, o harmônio, o piano ou o violino lhe davam o tom e a segurança da nota musical. Sem eles seu canto desafinava. Seu cérebro não tinha as qualidades necessárias que os números da música exigiam. Contra isso nada podia ser feito. Por mais que se esforçasse o resultado era pífio. O maestro percebeu, mas nada lhe disse. Foi fazer um curso no Canadá, enviou-lhe cartões postais e assim terminou a história de um pianista que nem início teve.
    Percebe, agora, que a conjugação da falta de talento para a música, a entrada na adolescência (a mudança da voz) e o início do curso científico (com matérias como trigonometria, grego e outras que exigiam mais do cérebro), talvez tenham determinado o fim dos seus estudos naquele estabelecimento.
    Depois que saiu do Seminário, na sociedade, procurava negar que tinha sido um seminarista. Aquela experiência de vida trouxe-lhe muitos traumas, principalmente com relação ao sexo.   

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