UMA CABANA NO CAMPO
Lua
cheia
A cabana não tem luxo, nem muito conforto. Junto com outras cinco, que mantém entre si uma distância de aproximadamente cinqüenta metros, está localizada numa área elevada. A paisagem é de áreas cultivadas e de floresta secundária. A minha é a única ocupada, pois nesta época do ano o must são as praias do litoral. A temperatura é amena e o vento - uma brisa forte - é frio e constante. Próximo, uma pequena lagoa (como não poderia deixar de ser), onde a pesca é reservada aos associados. A carpa-capim, que pode pesar mais de dez quilos, é o peixe nobre.
Amanhã será lua cheia. Vocês já viram uma lua cheia, sem as luzes da cidade? No campo é uma experiência única. São noites em que, na ausência de nuvens, o céu e a terra se encontram. Espero que isto ocorra nesta e nas próximas noites.
A lua, na tradição das tribos teutônicas, é masculina (Der Mond=O Lua) e o sol feminino (Die Sonne=A Sol). Será, então a lua masculina que irá invadir a minha noite. E quando "ele" se for, o sol feminino me acalentará.
Olhos azuis
Encontro de olhares. Devem ser claros - verdes, castanhos, azuis -. Gosto de olhos transparentes, cristalinos, onde posso mergulhar... Entro em êxtase quando são receptivos. Às vezes o outro se assusta, teme a invasão. Talvez porque meus olhos revelem fortes desejos de união.
Quando meus olhos encontraram aqueles olhos azuis brilhantes, pedras preciosas incrustadas numa tez morena - dizem que a sua bisavó era bugra - entramos em sintonia. Mas ele logo desviou o olhar. Tento imaginar quantas informações conscientes e inconscientes, biológicas, culturais, religiosas e emocionais entraram no circuito. Quando irei vê-lo novamente?
As nuvens cobriram a lua. Mas o negro da noite na cabana, está impregnado de azul. Disto tenho certeza.
Ele sorriu-me
Acordo com o canto dos passarinhos. Está clareando o dia. Hoje penso em fazer uma caminhada. Olhos Azuis, pai, mãe e irmãos certamente estarão trabalhando no campo, junto com os peões. Conheci a família há pouco tempo, quando me levaram o convite de casamento. A irmã de Olhos Azuis vai casar-se com o meu irmão, neste final de semana. Por isto estou por aqui. Não pensem vocês que não sei a tremenda encrenca que pode acontecer se não souber ser muito discreto. Mas ele não me sai da cabeça. Já passei por situações semelhantes e não será o perigo que me fará desistir. Se nada acontecer entre nós, ao menos não irei culpar-me de não haver tentado.
Tomo um copo de leite, como uma banana. Com tênis, camiseta, shorts e boné, inicio a caminhada. Gosto de caminhar uns cinco quilômetros diariamente, afinal é o único exercício físico que faço (além de sexo é óbvio!). Ás sete da manhã, o sol já cobre a paisagem. Com passadas firmes, começo a caminhada cumprimentando o vigia e falando do dia maravilhoso. Estrada de chão batido e muita poeira. Sou o único a caminhar por estas paragens. Afinal, o trabalho no campo é um exercício físico mais intenso do que uma simples caminhada. E eles usam caminhões e tratores para se deslocar e, certamente, neste horário já estão trabalhando.
Como eu já conhecia a área, não foi difícil chegar. Até aquele momento parece que não me haviam notado. Estavam concentrados no que faziam: "quebrar" as folhas de fumo. Chegando mais próximo, o pai fez-me um aceno. Ao lado dele, de gorro azul e branco, Olhos Azuis, com certeza. Meu coração se acelerou. Será que ele me daria uma abertura? Será que o nosso primeiro olhar não passou de um "olá!"? Será que ele sentiu algo por mim? Será que houve "liga"?
Fui chegando e, olhando indistintamente para todos, com um sorriso dei um sonoro "bom dia!!!" Olhos Azuis se virou, apoiou-se na enxada, e segurou o meu olhar. Seus olhos sorriam. E sorrindo, falou "bom dia!" Dentes muito brancos, lábios carnudos... só agora reparei. E o pai :
- Tudo bem? Como foi na cabana? E a caminhada?
Mas eu só via Olhos Azuis. Uma brisa mais forte destacou a saliência entre as suas pernas e eu engoli em seco.
- Passa lá em casa, continuou o pai. Vem jantar conosco.
- Tudo bem. À noite a gente se vê.
Feliz, retornei. Mas a ansiedade se apossou de mim. Meus pensamentos estavam confusos. Com todo aquele aparato familiar, onde eu era o centro das atenções, como chegar a Olhos Azuis?
Por que? perguntei a mim mesmo. Por que tenho essa atração irresistível por rapazes (entre 18 e 28, é importante que se diga)? Por que os meus caminhos são sempre os mais difíceis? Por que não sinto atração por homens da minha idade (pelo contrário, sinto alergia)? Manter uma relação tipo pai e filho... "É meu sobrinho... É meu tio... É meu amigo (com trinta anos de diferença?)". O preconceito é ainda maior. Que merda! Sou tímido e introvertido, mas preciso usar essas características em meu proveito. Felizmente há rapazes que amam coroas. Ah, a vida. A vida é maravilhosa.
O jantar
A lua cheia ilumina a pequena cidade. Eles moram numa casa simples, mas confortável dentro do perímetro urbano.
Foi um jantar agradável regado a vinho e amenidades. A rainha da noite, obviamente, era a noiva acompanhada pelo meu irmão. Olhos Azuis afastou-se logo. Na despedida, ele reapareceu. Acompanharam-me até o carro. Ao entrar no carro, ele segurou a porta: - Queremos a mesma coisa, murmurou. - Tchau, falou em voz alta e fechou a porta do carro.
Por alguns segundos, fiquei sem fala. Devagar dei partida ao carro e com um aceno me despedi de todos.
E agora? Senti que ele tomará as iniciativas a partir deste momento. Estou em chão desconhecido. Sobre o que estava acontecendo, não podia falar a ninguém. "Queremos a mesma coisa". Será mesmo verdade? Será que realmente mereço tanto? O que ele poderá fazer? Nas cabanas há vigilância... Esperar. Só posso esperar. Qualquer iniciativa deve ser dele.
Coloquei um Cd com músicas românticas, abri uma garrafa de vinho e me sentei defronte à cabana. As emoções a mil...
O casamento
Amanhã, sábado, acontecerá o casamento reunindo em torno de 400 pessoas. Com toda essa gente, vai surgir uma oportunidade para termos, no mínimo, um papo. Posso convidá-lo a passar uns dias em Floripa, e ele certamente encontrará fortes motivos para fazer a viagem. Quem sabe ele tem algum pretexto para ir até uma cidade próxima e lhe dou carona. O único entrave, talvez seja o fato de eu viajar domingo, pela manhã.
É, no casamento, tudo se resolverá.
Terno e gravata com este calor de verão! Ah, como detesto essas roupas que usei por muitos anos. E como detesto essas reuniões de família, esse aglomerado de egos, cada um querendo mostrar maior poder e riqueza. E eu querendo somente a companhia de Olhos Azuis nesta noite de lua cheia. Só isso. Mas prometi ao meu irmão que estaria presente no seu casamento. Sou testemunha.
Marcha nupcial. Missa. Alianças. Juramento. Até parece que a partir de agora eles serão felizes para sempre.
Uma grande festa. Muita conversa, música, comida e bebida. E eu de terno, com um riso forçado, suando em bicas. "Quero lhe apresentar o Prefeito... Quero lhe apresentar o doutor fulano... o vereador sicrano". E eu na maior pose. Onde estará Olhos Azuis? De repente me batem nas costas: - Você aqui!!! Que satisfação! Há quanto tempo! Vem cá quero te apresentar a família e os amigos! Ele me apresentando: - A este homem muito deve a Universidade. Foi assessor do Reitor, ocupou cargos importantes..." E eu com aquele sorriso, fazendo pose e apertando mãos. Meu Deus, onde fui me meter. Eu preciso sumir, desaparecer... Gargalhadas, uísque, gelo, mais uísque... Quando é que isso vai terminar? Finalmente, consegui ver Olhos Azuis. Estava com um grupo de amigos. Nossos olhos se encontraram. Levantou o copo, me brindou e sorriu. Eu precisava fazer alguma coisa, mas a empolgação dos meus novos amigos era enorme. Tive que dar um tempo, agradecer todas as gentilezas... E, finalmente, consegui pedir licença e sair. Olhos Azuis não estava mais. Fui até o banheiro. Talvez o encontrasse por lá. Nada.
Continuei circulando, apertando mãos, dando abraços aqui e ali, conhecendo parentes velhos e novos. Depois de horas, desisti.
Afrouxei a gravata, tirei o paletó... - Vou embora, decidi. Dei mais uma volta e fui até o balcão de bebidas.
- Tens uísque?
- O uísque está sendo servido pelos garçons.
- Qual o uísque que tens?
- Cavalo Branco.
- Tens uma garrafa? - falei estendo uma nota de cinqüenta.
- Só meia.
- Tudo bem.
Depois de tudo o que aconteceu, depois de toda a expectativa, depois de ser reconhecido e apresentado a todos os participantes da festa (eu que pensara em ficar anônimo), depois de Olhos Azuis ter sumido, só um uísque mesmo para encerrar essa infeliz viagem.
Cheguei à cabana em frangalhos. Coloquei uísque puro no copo, tomei um gole, sentei-me no sofá, fechei os olhos e tentei relaxar.
Estava cochilando.
Uma batida na porta.
A esta hora? Será o vigia? Pode ser um assalto.
Levantei-me e cheguei pra perto.
- Quem é?
- Vim trazer a sobremesa.
Parecia a voz de Olhos Azuis. Meu coração disparou.
Abri a porta.
- Olhos Azuis!
Nos abraçamos e beijamos com força.
A última coisa que lembro foi ele fazendo carinho no meu rosto e beijando os meus olhos.
Acordou-me a claridade do dia e o calor. Não havia mais ninguém na cabana. Eu nu, com o corpo coberto com uma mistura ressequida de suor, lágrimas, saliva e esperma. Não, não tinha pressa. Tentei identificar um cheiro dele. Impossível. Os nossos cheiros se haviam misturado. "Viver ainda vale a pena", pensei.
Tomei banho com calma, lembrando cada cena da noite passada. Fiquei excitado novamente. Comecei a rir... Fazia tempo que eu não ria com tamanha satisfação.
O vigia me abriu o portão com um risinho cúmplice.
- Dormiu bem, doutor!
- Estava ótimo, falei estendendo-lhe uma nota de cinqüenta.
- Obrigado, doutor! Boa viagem e volte sempre.
Os vigias sempre sabem tudo.
Aqueles dias na cabana me deixaram rejuvenescido.
A cabana não tem luxo, nem muito conforto. Junto com outras cinco, que mantém entre si uma distância de aproximadamente cinqüenta metros, está localizada numa área elevada. A paisagem é de áreas cultivadas e de floresta secundária. A minha é a única ocupada, pois nesta época do ano o must são as praias do litoral. A temperatura é amena e o vento - uma brisa forte - é frio e constante. Próximo, uma pequena lagoa (como não poderia deixar de ser), onde a pesca é reservada aos associados. A carpa-capim, que pode pesar mais de dez quilos, é o peixe nobre.
Amanhã será lua cheia. Vocês já viram uma lua cheia, sem as luzes da cidade? No campo é uma experiência única. São noites em que, na ausência de nuvens, o céu e a terra se encontram. Espero que isto ocorra nesta e nas próximas noites.
A lua, na tradição das tribos teutônicas, é masculina (Der Mond=O Lua) e o sol feminino (Die Sonne=A Sol). Será, então a lua masculina que irá invadir a minha noite. E quando "ele" se for, o sol feminino me acalentará.
Olhos azuis
Encontro de olhares. Devem ser claros - verdes, castanhos, azuis -. Gosto de olhos transparentes, cristalinos, onde posso mergulhar... Entro em êxtase quando são receptivos. Às vezes o outro se assusta, teme a invasão. Talvez porque meus olhos revelem fortes desejos de união.
Quando meus olhos encontraram aqueles olhos azuis brilhantes, pedras preciosas incrustadas numa tez morena - dizem que a sua bisavó era bugra - entramos em sintonia. Mas ele logo desviou o olhar. Tento imaginar quantas informações conscientes e inconscientes, biológicas, culturais, religiosas e emocionais entraram no circuito. Quando irei vê-lo novamente?
As nuvens cobriram a lua. Mas o negro da noite na cabana, está impregnado de azul. Disto tenho certeza.
Ele sorriu-me
Acordo com o canto dos passarinhos. Está clareando o dia. Hoje penso em fazer uma caminhada. Olhos Azuis, pai, mãe e irmãos certamente estarão trabalhando no campo, junto com os peões. Conheci a família há pouco tempo, quando me levaram o convite de casamento. A irmã de Olhos Azuis vai casar-se com o meu irmão, neste final de semana. Por isto estou por aqui. Não pensem vocês que não sei a tremenda encrenca que pode acontecer se não souber ser muito discreto. Mas ele não me sai da cabeça. Já passei por situações semelhantes e não será o perigo que me fará desistir. Se nada acontecer entre nós, ao menos não irei culpar-me de não haver tentado.
Tomo um copo de leite, como uma banana. Com tênis, camiseta, shorts e boné, inicio a caminhada. Gosto de caminhar uns cinco quilômetros diariamente, afinal é o único exercício físico que faço (além de sexo é óbvio!). Ás sete da manhã, o sol já cobre a paisagem. Com passadas firmes, começo a caminhada cumprimentando o vigia e falando do dia maravilhoso. Estrada de chão batido e muita poeira. Sou o único a caminhar por estas paragens. Afinal, o trabalho no campo é um exercício físico mais intenso do que uma simples caminhada. E eles usam caminhões e tratores para se deslocar e, certamente, neste horário já estão trabalhando.
Como eu já conhecia a área, não foi difícil chegar. Até aquele momento parece que não me haviam notado. Estavam concentrados no que faziam: "quebrar" as folhas de fumo. Chegando mais próximo, o pai fez-me um aceno. Ao lado dele, de gorro azul e branco, Olhos Azuis, com certeza. Meu coração se acelerou. Será que ele me daria uma abertura? Será que o nosso primeiro olhar não passou de um "olá!"? Será que ele sentiu algo por mim? Será que houve "liga"?
Fui chegando e, olhando indistintamente para todos, com um sorriso dei um sonoro "bom dia!!!" Olhos Azuis se virou, apoiou-se na enxada, e segurou o meu olhar. Seus olhos sorriam. E sorrindo, falou "bom dia!" Dentes muito brancos, lábios carnudos... só agora reparei. E o pai :
- Tudo bem? Como foi na cabana? E a caminhada?
Mas eu só via Olhos Azuis. Uma brisa mais forte destacou a saliência entre as suas pernas e eu engoli em seco.
- Passa lá em casa, continuou o pai. Vem jantar conosco.
- Tudo bem. À noite a gente se vê.
Feliz, retornei. Mas a ansiedade se apossou de mim. Meus pensamentos estavam confusos. Com todo aquele aparato familiar, onde eu era o centro das atenções, como chegar a Olhos Azuis?
Por que? perguntei a mim mesmo. Por que tenho essa atração irresistível por rapazes (entre 18 e 28, é importante que se diga)? Por que os meus caminhos são sempre os mais difíceis? Por que não sinto atração por homens da minha idade (pelo contrário, sinto alergia)? Manter uma relação tipo pai e filho... "É meu sobrinho... É meu tio... É meu amigo (com trinta anos de diferença?)". O preconceito é ainda maior. Que merda! Sou tímido e introvertido, mas preciso usar essas características em meu proveito. Felizmente há rapazes que amam coroas. Ah, a vida. A vida é maravilhosa.
O jantar
A lua cheia ilumina a pequena cidade. Eles moram numa casa simples, mas confortável dentro do perímetro urbano.
Foi um jantar agradável regado a vinho e amenidades. A rainha da noite, obviamente, era a noiva acompanhada pelo meu irmão. Olhos Azuis afastou-se logo. Na despedida, ele reapareceu. Acompanharam-me até o carro. Ao entrar no carro, ele segurou a porta: - Queremos a mesma coisa, murmurou. - Tchau, falou em voz alta e fechou a porta do carro.
Por alguns segundos, fiquei sem fala. Devagar dei partida ao carro e com um aceno me despedi de todos.
E agora? Senti que ele tomará as iniciativas a partir deste momento. Estou em chão desconhecido. Sobre o que estava acontecendo, não podia falar a ninguém. "Queremos a mesma coisa". Será mesmo verdade? Será que realmente mereço tanto? O que ele poderá fazer? Nas cabanas há vigilância... Esperar. Só posso esperar. Qualquer iniciativa deve ser dele.
Coloquei um Cd com músicas românticas, abri uma garrafa de vinho e me sentei defronte à cabana. As emoções a mil...
O casamento
Amanhã, sábado, acontecerá o casamento reunindo em torno de 400 pessoas. Com toda essa gente, vai surgir uma oportunidade para termos, no mínimo, um papo. Posso convidá-lo a passar uns dias em Floripa, e ele certamente encontrará fortes motivos para fazer a viagem. Quem sabe ele tem algum pretexto para ir até uma cidade próxima e lhe dou carona. O único entrave, talvez seja o fato de eu viajar domingo, pela manhã.
É, no casamento, tudo se resolverá.
Terno e gravata com este calor de verão! Ah, como detesto essas roupas que usei por muitos anos. E como detesto essas reuniões de família, esse aglomerado de egos, cada um querendo mostrar maior poder e riqueza. E eu querendo somente a companhia de Olhos Azuis nesta noite de lua cheia. Só isso. Mas prometi ao meu irmão que estaria presente no seu casamento. Sou testemunha.
Marcha nupcial. Missa. Alianças. Juramento. Até parece que a partir de agora eles serão felizes para sempre.
Uma grande festa. Muita conversa, música, comida e bebida. E eu de terno, com um riso forçado, suando em bicas. "Quero lhe apresentar o Prefeito... Quero lhe apresentar o doutor fulano... o vereador sicrano". E eu na maior pose. Onde estará Olhos Azuis? De repente me batem nas costas: - Você aqui!!! Que satisfação! Há quanto tempo! Vem cá quero te apresentar a família e os amigos! Ele me apresentando: - A este homem muito deve a Universidade. Foi assessor do Reitor, ocupou cargos importantes..." E eu com aquele sorriso, fazendo pose e apertando mãos. Meu Deus, onde fui me meter. Eu preciso sumir, desaparecer... Gargalhadas, uísque, gelo, mais uísque... Quando é que isso vai terminar? Finalmente, consegui ver Olhos Azuis. Estava com um grupo de amigos. Nossos olhos se encontraram. Levantou o copo, me brindou e sorriu. Eu precisava fazer alguma coisa, mas a empolgação dos meus novos amigos era enorme. Tive que dar um tempo, agradecer todas as gentilezas... E, finalmente, consegui pedir licença e sair. Olhos Azuis não estava mais. Fui até o banheiro. Talvez o encontrasse por lá. Nada.
Continuei circulando, apertando mãos, dando abraços aqui e ali, conhecendo parentes velhos e novos. Depois de horas, desisti.
Afrouxei a gravata, tirei o paletó... - Vou embora, decidi. Dei mais uma volta e fui até o balcão de bebidas.
- Tens uísque?
- O uísque está sendo servido pelos garçons.
- Qual o uísque que tens?
- Cavalo Branco.
- Tens uma garrafa? - falei estendo uma nota de cinqüenta.
- Só meia.
- Tudo bem.
Depois de tudo o que aconteceu, depois de toda a expectativa, depois de ser reconhecido e apresentado a todos os participantes da festa (eu que pensara em ficar anônimo), depois de Olhos Azuis ter sumido, só um uísque mesmo para encerrar essa infeliz viagem.
Cheguei à cabana em frangalhos. Coloquei uísque puro no copo, tomei um gole, sentei-me no sofá, fechei os olhos e tentei relaxar.
Estava cochilando.
Uma batida na porta.
A esta hora? Será o vigia? Pode ser um assalto.
Levantei-me e cheguei pra perto.
- Quem é?
- Vim trazer a sobremesa.
Parecia a voz de Olhos Azuis. Meu coração disparou.
Abri a porta.
- Olhos Azuis!
Nos abraçamos e beijamos com força.
A última coisa que lembro foi ele fazendo carinho no meu rosto e beijando os meus olhos.
Acordou-me a claridade do dia e o calor. Não havia mais ninguém na cabana. Eu nu, com o corpo coberto com uma mistura ressequida de suor, lágrimas, saliva e esperma. Não, não tinha pressa. Tentei identificar um cheiro dele. Impossível. Os nossos cheiros se haviam misturado. "Viver ainda vale a pena", pensei.
Tomei banho com calma, lembrando cada cena da noite passada. Fiquei excitado novamente. Comecei a rir... Fazia tempo que eu não ria com tamanha satisfação.
O vigia me abriu o portão com um risinho cúmplice.
- Dormiu bem, doutor!
- Estava ótimo, falei estendendo-lhe uma nota de cinqüenta.
- Obrigado, doutor! Boa viagem e volte sempre.
Os vigias sempre sabem tudo.
Aqueles dias na cabana me deixaram rejuvenescido.
Comentários
Postar um comentário