O Meu Horário

Na nossa casa, na sala, havia um grande relógio de parede com pêndulo. Meu pai dava corda e mantinha a hora certa. Na época não tínhamos rádio e então não se podia acertar a hora de acordo com a Rádio Relógio do Rio de Janeiro. Meu pai ia para a fora de casa, olhava para o sol e afirmava com convicção a hora presente.
Duas tias ficaram guardiãs do relógio de parede inglês do meu avô. Estava na parede como uma jóia de alto valor. Faltava-lhe, entretato, quem lhe desse corda e acertasse a hora. Quando elas faleceram o relógio simplesmente sumiu.
Quando íamos capinar na roça que ficava distante, meu pai olhava para o sol e dizia:
 - Es ist Mittag!
Colocávamos as enxadas nas costas e íamos para casa almoçar.
No Seminário, o horário fazia parte do sistema: disciplina e hierarquia.
Depois fui para o Exército o horário também fazia parte da organização.
Na universidade o horário era sagrado: o Reitor gaúcho e descendente de alemães. O novo reitor (brasileiro) já era mais flexível. Atrasos de reuniões em 15 ou vinte minutos, eram normais. Eu estava para resolver um assunto particular urgente e me atrasei em 15 minutos. Quando cheguei o pessoal da reunião já se havia dispersado. O Reitor tinha chegado mais cedo, resolveu sobre as pendências com os presentes e encerrou a reunião. - A tua falta foi registrada!
Um amigo colombiano gostava de me acompanhar nas pescarias nos costões da ilha. Eu chegava ao local marcado e ele aparecia meia hora depois:
 - Tu precisas ser mais flexível. Tens que dar um tempo. És muito radical.
A minha cabeça entrava em parafuso.
Semana passada estava assistindo ao Bundesliga, um jogo do Borussia Dortmund e o locutor por algum motivo falou de horário:
- Cara, estamos na Alemanha. Se chegas cinco minutos antes, já estás atrasado! Estás atrasado!
Sorri, finalmente voltei a encontrar o meu horário.

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