O Outono da Vida
“Estás
entregando o ouro aos bandidos!”, dizia-me um conhecido. “Não
podes divulgar as tuas dificuldades, os problemas de saúde, etc.
Precisas sempre dizer que tudo está bem!” Esta é uma orientação
do Ego. Precisas falar e demonstrar que está tudo bem.
Como
já não sou Ego, meu Eu verdadeiro me diz que devo falar e escrever
a verdade e somente a verdade. Por que? Para que os outros saibam
que eu, aos 70 anos, tenho muitas deficiências do cérebro que se
acentuaram ultimamente. Um conhecido médico, escritor e intelectual
daqui, Dr. Mário Costa, faleceu (parece-me) semana passada, dizia
que quando começares a dar vexame por causa da idade, retira-te,
recolhe-te. Precisas preservar a tua imagem. Sábia orientação.
Dizia Freud que a vida só tem sentido quando amas e trabalhas
(“lieben und arbeiten”). E isto precisa ser levado até o fim da
vida. Isto é possível? Sim, com algumas deficiências que o
cérebro me mostra. A releitura das Memórias de Adriano de
Marguerite Yourcenar são importanes pra mim neste momento. Outro
sábio que gosto de reler é José Saramago. Sábio porque mostrava
que os seus pontos de vista, com a idade mudavam. Adorava Fidel
Castro, mas com a idade percebeu o grande fracasso da revolução
cubana.
Os
políticos amam a coerência, mas esta não é uma virtude dos
sábios. A conciência individual amplia-se com os anos de vida e o
que parece certo hoje, pode ser difente amanhã.
Quando
os meus escritos te parecerem estranhos lembre-se desta crônica: o
outono da vida.
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