A individualidade

Individualidade é a consciência de si mesmo, a noção de estar só e apartado de um grupo. Preservar, fortalecer e viver a sua individualidade; construir a sua autonomia, depender o mínimo do outro e ser livre, parece-me que são valores pouco cultuados no nosso meio. Aqui viver é relacionar-se, meter-se na vida alheia, fofocar e, sobretudo pertencer. A individualidade, no nosso caso, está espalhada pelo grupo, pelo mundo exterior, ela não está centrada no sujeito.
Estes pensamentos lembram Platão: “Quem faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante”.
A individualidade é um valor em Nietzsche:
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o”.
E em Albert Einstein:
Toda civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo criativo. Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro tirou fogo de uma pedra. ... Só o indivíduo pode pensar e, pensando, criar novos valores para o mundo. Só o indivíduo pode estabelecer novos padrões morais que mostram o caminho para as gerações futuras. Sem personalidades decisivas pensando e criando de forma independente, o progresso humano é inconcebível.”
É na individualidade que se percebe em profundidade a desigualdade entre os sujeitos. É oportuno lembrar Rui Barbosa:
"A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à pela educação, atividade e perseverança. Tal é a missão do trabalho.”
A valorização da individualidade não é somente um fator cultural, mas representa também um estágio mais elevado de consciência de si mesmo dos componentes daquele grupo social.
O respeito à individualidade é um valor ético nem sempre compreendido e praticado, principalmente porque a vontade de poder controlar a vida do seu semelhante é inerente à natureza humana.
O direito à igualdade, embora na prática, seja apenas um ideal, é uma das maiores conquistas da nossa civilização. Este direito, entretanto, que pretende proteger os mais fracos, nega, de certa forma, o direito à individualidade, ou seja, à diferença.
Só podemos dizer que os indivíduos são iguais na medida em que êles são amplamente inconscientes, isto é, inconscientes de suas diferenças reais. Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais acentuada se torna sua diferença com relação a outros indivíduos e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum.
As diferenças individuais que se revelam pelo desenvolvimento da consciência não são compreendidas pelo homem comum. A diferença de níveis de consciência dificulta a comunicação. A pessoa, ao adotar valores éticos, em substituição às normas morais vigentes do seu grupo social, torna-se diferente e portanto, passa a ser tratada com preconceito e é marginalizada. Na verdade, para a maioria, a fim de que um ponto de vista seja válido, precisa colher o maior número possível de aplausos, independentemente dos argumentos apresentados em seu favor.
Verdadeiro e válido é aquilo em que a maioria crê, pois confirma a igualdade de todos. Mas para uma consciência diferenciada já não é mais de todo evidente que sua própria concepção se aplique aos outros, e vice-versa.
Saber-se igual aos outros dá segurança psicológica, fortalece o ego, aumenta a auto-estima. O uniforme que a criança usa desde o Jardim de Infância nada mais é do que a obsessão, muitas vêzes inconsciente, de pais e mestres em impor uma igualdade que não existe no ser humano. É com base na igualdade que é identificado o ser humano normal. Ser normal é talvez a coisa mais útil e conveniente com que podemos sonhar; mas a noção de ser humano normal, tal como o conceito de adaptação, implica limitar-se à média. ... Ser normal é o ideal dos que não têm êxito, de todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de adaptação. Mas para as pessoas dotadas de capacidade acima da média, que não encontram qualquer dificuldade em alcançar êxitos e em realizar a sua quota-parte de trabalho no mundo, para estas pessoas a compulsão moral a não serem nada senão normais significa o leito de Procusto: mortal e insuportavelmente fastidioso, um inferno de esterilidade e de desespero. (C. G. Jung.)
Ser normal é ser igual aos demais. É a confirmação da igualdade. Ser diferente é, portanto, anormal, doentio. O diferente precisa ser tratado para que volte a ser igual aos demais. É assim que o ser humano mediano julga o seu semelhante.
Se o direito à igualdade dentro do grupo social tem os seus méritos, ele também gera preconceitos e discriminação contra o diferente, seja pela condição social, convicções, hábitos, preferências sexuais, etc.
O preconceito, por exemplo, levou o Conselho Federal de Psicologia a adotar punições para os profissionais que tratarem o homossexualismo como doença, ou discriminarem homossexuais. Um grande e extraordinário passo.
O preconceito e a discriminação sempre existiram e vão continuar existindo porque a evolução da consciência é um processo lento.
A preferência sexual que é ditada pela natureza individual e, não é portanto, uma opção - mas mesmo que fosse deveria ser respeitada – tem sido motivo dos maiores preconceitos.
Nesta década, entretanto, temos observado que, com a melhoria dos meios de comunicação, as pessoas têm conseguido unir-se e lutar pelo direito à diferença, pelo respeito à individualidade, afinal essa também é uma luta pelos direitos humanos.
Assim como se lutou arduamente, por séculos, pelo direito à igualdade, deve-se combater, agora, num nível superior, pelo direito à diferença. O mesmo orgulho sadio que ostenta aquele que se identifica como homem de massa, deve poder mostrar aquele que é diferente em sua natureza, em sua individualidade.
O direito à individualidade, à diferença, é de certa forma uma utopia, mas não é proibido sonhar. Afinal sonhar é a única liberdade do ser humano.
O homem inconsciente tem uma compulsão em dominar o outro. Mas toda forma de poder é verdadeira inimiga da ordem. Toda ordem ou imposição contraria aquilo que é, por si só, um elemento intrínseco à natureza humana. Por que dominar o outro? É querer formá-lo à nossa imagem e semelhança.
O sonho e o ideal do homem comum é uma sociedade igualitária. O senso comum é essa força que também chamamos de democracia, regime de governo indispensável para organizar uma sociedade de indivíduos inconscientes.
O sonho daqueles que estão acima da média do nível geral de adaptação, daqueles que têm um maior nível de consciência da realidade, daqueles que não sentem a necessidade de governo político e religioso devem conformar-se em ser apenas diferentes.
Uma sociedade fundada na solidariedade e na liberdade ainda é uma utopia.



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