Na Universidade
É
preciso ser estrela e ter luz própria para crescer na vida. A
minha vida tem duas partes. Eu poderia chamá-la de duas vidas, tão
diferentes e tão minhas. A primeira começa com o nascimento e vai
até a morte do Ego, aproximadamente aos 35 anos. Não é uma morte
abrupta, radical, não. Ela acontece aos poucos.
A
morte do Ego acontece com a paixão da alma (psique). As últimas
palavras estão na Bíblia: 'Eloi,
Eloi, lamá sabactani'(Deus
meu, Deus meu, por que me abandonaste?) O Ego precisa morrer para que
o Eu verdadeiro – a Consciência - assuma a personalidade.
Ela
acontece quando o Ego está maduro e atingiu a perfeição
A
vida é formada por pequenos eventos que se vão adicionando até
formar um acontecimento. Ela é uma história em que cada
experiência, por menor que seja, é imprescindível para a formação
do evento final: o sucesso individual.
A
experiência do Seminário foi fundamental pela experiência de vida
e pelo conhecimento. O Exército foi fundamental pelos mesmos
motivos. Mas também porque me permitiu Cursar Direito e ter a
experiência de presidir o Clube Atlético Catarinense, e ao tê-lo,
fazer contatos com alta cúpula do Exército. Estamos em 1975 e o
Exército é Governo.
Despedir-me
do Exército por força de um curso compulsório no Rio de Janeiro
que não se coadunava com os meus objetivos imediatos. Foi uma
decisão instintiva, sem uma análise maior e racional da realidade.
Pensavam
meus amigos que eu estava com os caminhos abertos com segurança
para a nova vida. Mas não. Estava sem perspectivas.
A
UFSC havia trocado de Reitor. Grandes projetos com a construção do
Campus da Trindade. O chefe de Gabinete do Reitor era conhecido meu e
da mulher. Engraxei os sapatos coloquei terno e gravata e fui visitar
a Reitoria. Fui encaminhado para o Departamento de Pessoal. Não, não
havia perspectiva de contratos. Que voltasse mais tarde. Assim
passou-se uma semana. Voltei ao Departamento e nada. Passou mais uma
semana e decidi voltar ao Chefe de Gabinete para agradecer o seu
apoio.
- Nada?
Me espere aqui.
Em
dez minutos voltou.
- Às
seis da tarde, te apresenta ao Pró-Reitor de Administração.
No
horário o Pró-Reitor, me recebeu e me levou de carro oficial para
a Prefeitura do Campus:
- Amanhã,
às 08 da manhã, podes começar aqui.
Fui
contratado como Assessor Especial do Reitor, dentre algumas vagas
criadas pelo MEC. Eu estava com 29 anos e força total.
Fui
designado para ser Coordenador dos Serviços de Manutenção da UFSC
que incluía Parques e Jardins, Pintura, Hidráulica, Carpintaria,
Alvenaria, etc. Era uma área da administração em que o Reitor
esperava designar um engenheiro com larga experiência,
preferencialmente aposentado.
Prefeito
do Campus Universitário
Ao
chegar pedi à Secretária que marcasse uma reunião de todos os
chefes de setores de manutenção da Prefeitura para conhecê-los e
saber das suas necessidades. A Coordenação contava também com um
engenheiro agrônomo, três engenheiros civis e um arquiteto
recém-formados e contratados agora com a nova administração do
Reitor. Com eles faria uma reunião posterior.
Eu
não tinha experiência nenhuma de administração pública, de
manutenção e obras de construção civil. Nada. Estava entrando com
a cara e a coragem. Pensava em suprir a falta de experiência com o
entusiasmo e o bom senso.
Em
20 de maio de 1976 havia sido publicado no DOU a nova estrutura
organizacional básica da Universidade. Em 10 de janeiro de 1977, foi
instalada a Prefeitura em substituição à Coordenadoria dos
Serviços de Manutenção, com a minha nomeação como Prefeito. Em
administrações posteriores substituíram o nome Prefeito para
Diretor da Prefeitura.
No
dia seguinte há minha chegada na Coordenadoria do Campus estacionou
um Galaxy preto na porta de entrada. Me chamaram: era o Reitor. Ele
vinha fazer uma visita. Pediu para embarcar e fomos dar uma volta
pelo campus.
Conheci-o
naquela hora. Era engenheiro mecânico, uma pessoa agradável,
dinâmica, simples, falava fluentemente inglês e alemão; tinha uma
forte liderança na UFSC e no meio científico nacional.
Era gaúcho, descendente de alemães e estava no cargo há três
meses: CASPAR
ERICH
STEMMER.
Nós
éramos do mesmo time: vestíamos a camisa no que fazíamos. Ele
muito me prestigiou. Reuniões frequentes no seu gabinete, inclusive
com Esperidião Amin que era o prefeito de Florianópolis.
Meu
tratamento era “Doutor” e “Professor”. Lembrei-me do meu pai.
Quando me formei, disse para ele, rindo: agora sou um “doutor”. E
ele: “Na. Du best kana Docta (médico em alemão), Du best ana
Advokat.”
A
área de trabalho era enorme. O Campus não é considerado grande,
mas tem um milhão de metros quadrados. A UFSC é uma pequena cidade
com 15.000 pessoas.
Fiz
um regimento interno para uso dos funcionários que no momento eram
127. A maioria semianalfabetos. Aos poucos aumentamos os serviços da
Secretaria, incluindo licitações de obras e materiais para a
Prefeitura.
Meu
ego flutuava embevecido. E assim passei quatro anos. A oposição
venceu a eleição para Reitor no Conselho Universitário. Aconteceu
a minha crise existencial da meia idade.Fiquei mais um ano na
administração seguinte e pedi demissão do cargo de Prefeito.
Stemmer
me apresentou ao Presidente da CERTI para um cargo de coordenação,
mas meu tempo já tinha passado. Minha alma estava desmonorando.
Fiquei mais alguns anos como Assessor no Departamento de
Administração Escolar, Pró-Reitoria de Ensino e Conselho
Universitário. Aos 46 anos de idade, por motivos de saúde, me
aposentei do serviço público federal.
As
Obras no Campus Universitário
O
prédio da Prefeitura é um prédio antigo e foi campo de
concentração do Estado. A partir de 1942 com
a declaração de guerra à Alemanha, o industrial, comerciante,
simpatizante nazista ou o colono que não tinha noção do que era
nazismo, todos foram nivelados no mesmo grau de periculosidade pela
ditadura de Getúlio Vargas. Era a campanha da Nacionalização. O
interventor no Estado era Nereu Ramos. Os descendentes de alemães
eram chamados de “alienigenas” pelos líderes militares
nordestinos.
Os
problemas imediatos maiores da Prefeitura eram as enchentes que
invadiam o auditória da Reitoria, as instalações da Engenharia
Mecânica e o Centro de Ciências Biológicas. O revestimento dos
canais de dois córregos que atravessam o campus ficou com o
Escritório Técnico e Administrativo da UFSC (ETUSC). À prefeitura
coube aterrar as áreas alagadiças e promover o ajardinamento. Foram
37.000 m³ de barro e 5.000 m³ de pedras. É bom lembrar que o barro
e as pedras foram cedidas, a pedido do Prefeito, por uma empresa que
estava construindo um condomínio residencial ao lado do campus.
A
Prefeitura tinha um horto florestal próprio que forneceu 2.250 mudas
de árvores e 20.000 mudas de flores para o campus. A arborização
foi uma continuação da administração anterior.
Em
1977 a UFSC adquiriu a área da antiga igreja da Trindade, Salão
Paroquial (transformado em teatro de 150 lugares) e a Casa do Divino.
Coube à prefeitura fazer a reforma desses imóveis por administração
direta. O artista plástico Hassis pintou um mural de 160m² no
interior da igreja.
A
telefônica do campus era arcaica. Um grande problema, mesmo com a
atenção de Telesc. Somente no final da gestão Stemmer resolvemos o
problema com a locação da central telefônica mais moderna do
mercado. Foi um processo de licitação da Prefeitura do Campus.
A
Pró-Reitoria de Planejamento criou o Serviço de Limpeza – SERLIM
e Serviço de Vigilância com estrutura própria e que foram
transferidos para a Prefeitura. Agora a Prefeitura contava com 327
funcionários.
No
final da gestão Stemmer recebi uma placa:
“Ao
Bel. Romeu Pitz, Prefeito do Campus Universitário, o reconhecimento
dos Professores do Centro de Ciências Biológicas. UFSC – MAIO
1980.”
Em
maio de 1980, o Jornal Universitário fez uma edição especial, UFSC
– QUATRO ANOS DEPOIS, com a realização de todos os setores e da
Prefeitura Universitária. Um estudante entrevistado, João Cláudio
Zanatta, 5a, Fase de Agronomia “achou o reitor um ótimo Prefeito
do Campus”. Senti-me elogiado.
Em
abril de 1981, o Jornal Universitário dedicou-me meia página com
foto:
“Campus,
uma pequena comunidade, também tem prefeito” (página 10).
“Administrar o campus é tão difícil quanto uma cidade de médio
porte.Os problemas são diversos e tudo direciona numa questão:
falta de recursos. Para o Prefeito Romeu Pitz, a manutenção do
patrimônio é a pior tarefa.”
A
minha tarefa na UFSC estava concluída.

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