O Mundo Sensível e o Mundo das Idéias
O mundo das idéias fascina
e, observamos, condiciona o pensamento de muitos.
São duas formas de "ver" a realidade. A partir do momento
em que eu afirmo que a experiência é a base do saber, eu estou
privilegiando o mundo sensível em detrimento ao mundo das idéias.
Cada
pessoa vê a coisa de uma forma peculiar e pessoal. De forma natural,
uma pessoa, por exemplo, pode ver a rosa objetivamente: uma rosa,
vermelha, num jardim; outra vê uma rosa, bela, vermelha, com todas
as lembranças emocionais que ela traz: a mãe podando as rosas no
jardim, o espinho que lhe tirou uma gota de sangue dos dedos, a rosa
que ofereceu à sua primeira namorada, o perfume, etc. Ele ama ou
despreza a rosa de acordo com as experiências que ele teve com a
rosa. Ele “vê” a rosa subjetivamente. Outro pode ver, ainda, a
rosa de forma objetiva e subjetiva. Assim é o homem que vê a rosa.
A beleza, portanto, não está nela, mas naquele que a vê.
Sem
dúvida, como já afirmava Protágoras, o homem é a medida de todas
as coisas. O mesmo pensa Werner Heisenberg: “Inclino-me a dizer que
a ciência da natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e
sim uma parte do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por
isso também uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo.
Por conseguinte nós mesmos não podemos excluir-nos dela... Já não
podemos projetar os fenômenos totalmente no exterior, e nem podemos
objetivá-los completamente, mas apenas falar do mundo que o homem é
capaz de conhecer.”O mundo sensível nos mostra que “o
observador faz parte essencial do fenômeno observado” ; “a
beleza não está na flor mas naquele que a vê”. Podemos afirmar
então que só existe uma verdade: a verdade subjetiva.
É muito mais fácil, para o ser humano, avaliar os outros, o mundo
que o cerca, externo, objetivo e as suas qualidades, do que a si
mesmo. O "eu" é um perfeito juiz dos outros e, quase
sempre, somente deles. Autoconhecimento é um processo raro e,
geralmente, superficial. O homem projeta nos outros aquilo que ele é,
mas dificilmente identifica como seu, o conteúdo projetado.
Cada pessoa, na verdade, tem uma forma peculiar de perceber a
realidade, que passa a ser a "sua" verdade. O
condicionamento cultural nos leva a pensar que somos iguais. Quanto
mais inconscientes o indivíduo, maior essa ilusão de igualdade. E
por força dessa inconsciência, o homem cria leis para definir o que
é "ser normal". A Educação, a Psicologia, muitas vezes,
e a Religião, quase sempre, são os agentes da sociedade que
procuram promover a igualdade do que, na sua natureza, é desigual.
Essa desigualdade já está presente na formação da consciência.
Há duas formas gerais e inatas de perceber a realidade e que mudam
de graus de acordo com cada indivíduo: "pensar" e "sentir"
o mundo.
"Pensar o mundo" é vê-lo através da razão, da lógica e
da coerência. É uma forma abstrata composta por idéias e conceitos
objetivos. As experiências de vida são orientadas pelos fenômenos
objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de idéias gerais.
"Sentir o mundo" é recolher os fatos apenas como evidência
para suas próprias hipóteses e não em benefício dos próprios
fatos. O modelo vem de dentro, da experiência de vida, da intuição
(inconsciente) e é, portanto, puramente subjetivo. Predomina a
profundidade em detrimento da amplitude.
Entre o "puro pensar" e o "puro sentir" há um
abismo quase intransponível: a razão não compreende o sentimento e
este, não compreende a razão. No desenvolvimento da consciência o
"pensar" alia-se ao "sentir" para formar o
"saber". Entretanto, só o sentimento é capaz de promover
essa união.
Três pensamentos que identificam essa realidade:
"Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra
pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente
é ser ela”. Fernando Pessoa.
"... Só a arte, no que diz respeito à manifestação das
essências, é capaz de nos dar o que procurávamos em vão na
vida”.Gilles Deleuze.
"O racionalismo puro é estéril, o irracionalismo simples é
regressivo. O pensamento surge no "entre"". Peter
Sloterdijk.
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