O CONDICIONAMENTO
Todos
nós somos uma máquina de efeitos condicionados. Todos nós temos
fé, todos nós temos apegos e cada um tem o cérebro (ou cérebros,
como querem alguns) formatado
de acordo com a sua herança genética e experiência de vida. A fé
nos valores morais e religiosos da civilização, transmitida pela
tradição, cultura e educação, condiciona o ser humano e dá-lhe
segurança psicológica. Este condicionamento, entretanto, torna-o
impermeável, fechado, incapaz de perceber e absorver outras
realidades.
No
nosso condicionamento, geralmente, agimos por imitação, e por isso,
a vida, ao invés de ser
passa a ter um objetivo: tornar-se.
Esta percepção é fundamental e precisa ser sentida.
Nascemos geneticamente condicionados
e toda a nossa vida é um processo de condicionamento até que
começamos a despertar. Levamos 20, 30, 50, 60 anos reforçando o
nosso condicionamento. O grande problema é que quando despertamos
para esse processo queremos revertê-lo, mas, na maioria das vezes,
essa reversão é um novo condicionamento. Pensamos que nos
libertamos, mas tão somente mudamos de condicionamento. Na verdade é
impossível descondicionar totalmente
essa máquina, mas a consciência do
condicionamento liberta.
Mas quem, realmente, compreende essa
situação? Quem consegue sair de si mesmo, auto-observar-se de longe
e do alto, e perceber que ele é totalmente condicionado? Quem tem
consciência de que todas as suas escolhas são condicionadas? Será
que tudo aquilo que eu afirmo, escrevo e falo é algo realmente meu,
original, ou sou somente um papagaio que vive repetindo tudo o
que aprendeu pelo exemplo, pela imitação e pela educação? O
condicionamento nos dá segurança psicológica, nós precisamos da
fé, das nossas certezas, do nosso certo e errado, sob pena de
enlouquecermos. A pessoa comum não tem consciência disto. Ter
consciência é saber, é sentir. O conhecimento intelectual só nos
dá erudição, não nos dá sabedoria. As pessoas são
condicionadas, mas pensam que são livres.
A Psicologia e a Psiquiatria tratam da
psique, a religião da alma, isto é, da mesma coisa. O ser humano
normal é um robô, uma máquina de efeitos
condicionados. Quando esta máquina apresenta problemas o
psiquiatra dá-lhe alguns lubrificantes, alguns aditivos
para consertá-la. O Psicólogo faz uma análise e, a partir daí,
auxilia-a a consertar-se a si mesma para voltar a cumprir as
suas funções na sociedade de acordo com os valores coletivos por
ela estabelecidos. Tanto um, quanto outro, cumprem a função de
fazer o robô voltar a funcionar.
As religiões oficiais cumprem o mesmo
papel, dando destaque para a vida após a morte. Neste caso o
robô, ou melhor, a ovelha do rebanho, precisa ter uma
profunda fé na doutrina e nos dogmas da sua religião. Nos casos de
crises, em que a ovelha procura fugir do rebanho, sempre
haverá outros pastores e rebanhos para acolhê-la.
Assim vive o homem. Magnífica máquina
de efeitos condicionados, eficientíssimo robô, até o dia em que
começa a despertar, a pensar por si mesmo. Até o dia em que começa
a compreender que pode ser livre. Até o dia que percebe que pode
dispensar psicólogos, psiquiatras, padres e pastores.
Ter
uma profunda compreensão do seu condicionamento torna o homem livre.
Livre para olhar para fora de si mesmo, isto é, ultrapassar as
muralhas do condicionamento, abrir os olhos para o universo que o
cerca. É um renascimento. Significa retirar a venda dos olhos e
substituir a fé cega pela fé consciente. Este despertar é o
conhecimento de si mesmo, é a resposta para a pergunta quem sou
eu.
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